O Elmo Perdido – I

Março 29, 2012

I

 Ágape olhava o contorno das montanhas no horizonte. Os primeiros raios de sol já iluminavam o céu. Havia passado muito tempo desde que ela tinha ido à superfície pela última vez. Tanto tempo que já tinha esquecido como a luz do sol pode ser poderosa. Mas assim que os raios tocaram sua pele, ela se lembrou como os raios lhe faziam mal.

Tinha os olhos um tanto puxados e pareciam duas pérolas negras; e os cabelos eram da cor de folhas secas. Usava um vestido longo e uma capa com capuz.  Estava afiando seu bem mais precioso: sua espada. Ela mesma a entalhara com arabescos florais. Sorriu ao se lembrar das palavras do pai quando viu sua arte na espada. Você é tão feminina quanto sua mãe. Ainda bem que em todo o resto se parece mais comigo. Gostava de pensar que era parecida com seu pai, Hades. Não existe ser no mundo que não o respeite e muitos temem o seu nome. Sentia orgulho de ser sua filha e ficou honrada por ter sido escolhida para uma missão importante. Meu elmo perdido foi achado por um humano. Quero que o traga de volta e traga o humano também, pois ele andou usando algo que não lhe pertence…

Devo matá-lo?

Não, traga-o vivo. Eu mesmo cuidarei dele.

Embora preferisse caminhar durante a noite, não queria perder tempo. O humano que procurava era um ferreiro que atendia pelo nome de Dário. Quando o Deus ficou sabendo que um humano usava seu elmo, o submundo tremeu pela sua fúria.

Ela andou por quatro dias, até que chegou a Táurica. Estava de noite, uma fina garoa caía, o vento soprava com força e trovões clareavam o céu de tempos em tempos. O tempo fez com que a cidade parecesse deserta, pois não se via ninguém nas ruas, porém, ela podia ouvir os movimentos dentro das casas. Precisava achar alguém que lhe desse indicação de onde Dário poderia ser encontrado.

Passou na frente de um estábulo, um rapaz tentava, sem muito sucesso, acalmar os cavalos. Ela entrou tão silenciosa quanto um fantasma e os cavalos acalmaram-se de imediato. Sem entender, o homem olhou para trás e quase caiu de susto. “Onde eu posso achar um ferreiro que atende pelo nome de Dário?” Ágape não era do tipo que floreava as palavras, pois só abria a boca quando era estritamente necessário. O homem a olhou com uma mistura de medo e curiosidade. Sem paciência, Ágape jogou uma pequena bolsa com moedas, que ele logo aferrou. “Pode ficar com tudo. Agora me diz onde posso encontrá-lo?”

“Descendo a estrada, aquele lá nunca dorme, você verá a luz do fogo de longe.” Ela saiu do estábulo sem dizer mais nada.

O rapaz tinha razão, ela logo viu a luz do fogo e foi direto para lá. Dário trabalhava, dando golpes pesados e precisos em uma espada em brasa.  Tinha os cabelos pretos e ondulados como a água. Pelo tom da sua pele se podia supor que devia ficar muito tempo debaixo do sol. Ágape o observou de longe, esperava alguém mais presunçoso, parecia que ele gostava do seu trabalho, mas ela logo afastou esses pensamentos.   Assim que ele largou a espada, ela entrou com fúria, o pegou pelo pescoço e o colocou contra a parede. “Onde está o elmo de Hades?”

“Eu não…” Ele tentou falar, mas o ar não passava pela sua garganta. “Não sei…”

Ela liberou seu pescoço e soltou um suspiro de irritação. “Você encontrou um elmo perdido. Não encontrou?”

Dário caiu de joelhos tossindo, tentava recuperar o ar. “Sim…”

“Onde está?”

“Estava todo amassado, enferrujado, não achei que tivesse dono…”

“Onde está?”

Dário engoliu seco “Eu vendi.”

“O quê?”

Ele se levantou cambaleando. “Eu o consertei e vendi. Se você não reparou, é o que eu faço para viver. Mas tenho outros elmos…” Foi até uma pilha de armaduras, revirou  jogando-as no chão.

“Não quero outro. Você se lembra para quem vendeu?

“Eu me lembro da cara dele, mas não perguntei seu nome.”

Ágape o olhou com interrogação. Será que ele realmente não fazia ideia do que tinha vendido? “Você o colocou. Se não sabia o que era, por que o fez?”

“Como?”

“Meu pai descobriu que o elmo estava aqui porque você o usou. Se você não sabia de quem era, por que o colocou?” Ela falou aumentando o tom da sua voz.

“Sempre que eu faço uma armadura ou qualquer instrumento, eu provo para vender em boas condições…”

Ágape não sabia se acreditava ou não. Mas não importava, ela tinha suas ordens e iria obedecer. “Você se lembra para onde ele foi?”

“Ele foi para o Oeste, mas não sei…”

“Vamos. Você vem comigo.”

“O quê? Eu não vou a lugar algum. Já disse, me perdoe se peguei o que era seu, mas não tenho intenção de sair daqui.” Ele falou enquanto tentava se desvincular dela, mas ela era mais forte do que ele. Ágape lhe lançou um olhar de desdém e quando ele se deu conta, estava dentro de uma garrafa de vidro. Ela o observou por um segundo, parecia desesperado, batendo no vidro freneticamente. “Eu não perguntei quais eram suas intenções.” Disse Ágape.

Pendurou a garrafa na cintura e tomou seu caminho.

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Sinceridade

Outubro 8, 2011

C.S.

Junho 24, 2011

Brianna entrou no pub batendo a porta, o mesmo homem que cuidava do bar quando ela foi ajudar Carlos na floresta, estava lá. Não tinha nenhum cliente, o que significava que já era madrugada “Onde está o seu mais novo amigo?”

Brianna lançou um olhar de desprezo pelo comentário e se sentou “Ele não quis vir comigo…”

“Posso saber de onde vem todo esse interesse?”

“Não é que me interesse tanto.”

“Então devo supor que você seguiu aquele carro que o sequestrou, só por diversão.”

“Só estava tentando ajudar… Talvez eu deva voltar lá, um tempo naquela torre deve fazer com que ele mude de ideia. O que você acha?”

Jamal olhou bem no olho de Brianna, ela odiava quando ele fazia isso, parecia que podia ver tudo o que se passava dentro dela.

“Você quer que eu vá com você?” Ele falou com um sorriso malicioso.

 

Carlos caminhou no escuro, estava em um túnel. Devo estar debaixo da terra. Se for o esgoto, posso sair na rua, mas e se eu me perder aqui. Por um momento pensou em voltar para a torre, afinal, aquele parecia ser o plano de Christa, mas só de pensar em ficar naquela torre esperando alguma coisa ou alguém, o deixava em pânico. Continuou caminhando, em alguns lugares o túnel era muito estreito e ele tinha que passar de lado, não sentia o cheiro de esgoto, sentia cheiro de terra molhada. Depois de algum tempo, apareceram bifurcações e ele girou em vários pontos, aquele lugar parecia um labirinto. Estou preso aqui, nunca vou conseguir voltar! O terror se instalou no corpo de Carlos, não conseguia respirar, se sentia claustrofóbico, queria sair daquele lugar de qualquer jeito, as lágrimas escorriam dos seus olhos sem que ele percebesse. Foi então que ele se lembrou da picada, sua mão doía e pulsava, sentiu o gosto de sangue na sua boca Devia ser um animal venenoso, acabou! Carlos gritou com toda a força que conseguiu achar dentro dele, era sua última esperança, talvez alguém ouviria, mas não apareceu ninguém.

Janelas

Fevereiro 18, 2011

Ela vivia em um apartamento onde todas as janelas davam para outras janelas.

Em um dia como outro qualquer, ela estava na cozinha vendo televisão, quando olhou para fora e viu alguém. Estava acostumada a ver as pessoas dentro das casas, vivendo suas vidas, mas não se lembrava de ter visto aquele rapaz lá antes. Por algum motivo, achou que ele era interessante, não podemos dizer que ela o achou bonito, pois daquela distância não se podia ver o rosto das pessoas. Ela o observou por alguns segundos e voltou a fazer o que estava fazendo.

Depois daquele dia, de vez em quando, ela dava uma espiadinha para ver se o via de novo e ria consigo mesma. O que ela não sabia era que ele também tinha notado a sua presença.

A primeira vez que a observou foi quando ela estava sentada em frente a sua escrivaninha usando o computador. Ele estava na sacada fumando um cigarro, ele a viu, mas a princípio também não fez muito caso. Ele também já tinha se acostumado com as janelas e a vida dentro delas. Porém, ela se espreguiçou, esticou os braços para cima e olhou para fora. Nesse momento o olhar dois se cruzaram, ela se sentiu envergonhada por um momento, deu risada e voltou a fazer o que estava fazendo no computador, sem perceber que ele também riu. Menos de dois minutos se passaram, e ela, por curiosidade, queria saber se ele ainda estava lá, deu uma olhada com o rabo do olho, mas não, ele já tinha entrado, porém o sorriso continuou em seus rostos.

Conforme os dias passavam, os dois, de vez em quando, davam uma olhadinha pela janela, de curiosidade.

Uma dia estava tendo uma partida de futebol, Brasil e Inglaterra. Cada um na sua casa, cada um no seu mundo, assistindo a partida sem nem se lembrar da janela do outro, até que o Brasil fez um gol, ela salta de alegria, ele, não só salta, como também olha vai até a janela para gritar gol e sem perceber, seus olhos vão até a janela dela, ela está lá festejando o gol, ele ri sozinho.

Depois daquela noite os dias continuaram a correr normalmente e os dois continuaram a se procurar com olhadinhas furtivas pelas janelas.

Um dia ele fez uma festa, tinham muitas pessoas na sua casa. Ela percebeu, gostava de ouvir o barulho de festa, era como se não estivesse sozinha. Em um certo momento ele saiu na sacada para conversar com algumas pessoas que estavam fumando, entre uma frase e outra, ele dava uma olhadinha para a janela dela. Ela estava na cozinha, vendo TV . Por um momento ele desejou poder convidá-la para a festa. Alguns segundos depois desse pensamento o seu coração deu um pulo, ela também saiu na sacada, era a primeira vez que ele a via um pouco mais de perto. Tentou disfarçar para que os outros não percebessem, porém não conseguia evitar que seus olhos procurassem ver o que ela estava fazendo. Ela tinha saído para recolher as roupas do varal. Quando ela terminou, levantou a cabeça e foi então que o viu, os dois se olharam por uma fração de segundo, e assim como da outra vez, ela entrou em casa rindo de si mesma.

Depois daquela noite ele não conseguia mais afastar o sentimento que queria conhecê-la. Começa a procurar por ela na janela com mais frequência. Em alguns momentos pensa que talvez era melhor se ele saísse e arrumasse uma namorada, porque ficar procurando uma desconhecida na janela parecia coisa de gente louca. Mas era impossível, ele não conseguia esquecer, pois toda a vez que a via se sentia realmente feliz como um bobo. Ela também o procurava, mas preferia não pensar tanto no assunto, nunca foi fã de amores platônicos.

Um dia, ele finalmente decidiu, ia procurá-la. Sabendo onde estava a janela dela, não era difícil descobrir qual era o prédio, o andar ele já sabia, era o quinto. E lá foi ele, girando a rua ele ficou muito feliz, pois haviam muitas lojas e dois bancos, então ele sabia que não podiam ser aqueles prédios. Finalmente viu um prédio residencial, devia ser aquele. Esperou um tempo e pronto, alguém entrou no prédio, ele disfarçou e conseguiu pegar a porta aberta. Chegando no quinto andar seu coração era mil. Tinham quatro apartamentos, o primeiro ele sabia que não podia ser, por causa da posição. Porém os outros três sim. Ele começou a pensar no que falar, pensou… pensou… e não conseguiu achar nada melhor que “Preciso de um ovo para fazer um bolo, será que você poderia me emprestar?” Ele achou esse pensamento estranho, visto que ele nunca fez um bolo em vida sua, mas decidiu continuar com essa frase já que não pensava em nada melhor.

Parou em frente a primeira porta, respirou fundo e tocou a campainha. Ouviu o barulho da chave e suas pernas tremeram, pensou em sair correndo, mas não tinha mais tempo, uma senhora abriu a porta. Não era a casa dela. Ela o olhou e ele boquiaberto esqueceu o que devia dizer, até que a Senhora disse “Pois não?” E ele se lembrou. A Senhora deu o ovo a ele, e ele agradeceu. Era hora de ir para a segunda porta, mas e agora? O que ele fazia com aquele ovo? Decidiu que queria acabar logo com aquilo, escondeu o ovo no bolso do casaco e foi para a próxima porta.

Dessa vez estava mais relaxado, porém, quando a porta se abre a sua respiração para. Era ela! Sem dúvida! Era bonita, ele imaginava que ela seria bonita, mas ela era realmente bonita e tinha um sorriso contagiante. Ele não fala nada, a sua cara era de quem tinha conseguido provar algo que já sabia que existia. Resumindo, era uma cara de bobo. Ela não tinha a menor ideia que ele era o rapaz da janela. Se soubesse provavelmente faria a mesma cara, mas como não sabia, ela falou “Posso te ajudar?”

Ele saiu do transe e desembuchou a frase do ovo. Ela ri, pois o modo como ele falou foi realmente engraçado. Depois ela vai pegar o ovo, ele agradece e ela fecha a porta. Ele fica lá parado um tempo com aquele ovo na mão se sentindo o rei dos imbecis.

Ele volta para casa e continua pensando no que fazer. Aquilo não deu muito certo, ele queria conhecê-la, essa parte deu certo, mas e agora? Ele gostou dela, queria conhecê-la ainda mais. Como fazia para não parecer um maniaco que olha as pessoas pela janela e depois as persegue? Então ele decide escrever uma carta, explicando tudo e chamando ela para um encontro. Era isso o que ele ia fazer! E com essa decisão ele coloca as mãos nos bolsos do casaco com muita determinação e quebra os ovos. Digamos que isso não afetou a sua resolução.

No dia seguinte ela encontra uma carta de baixo da sua porta:

Olá, você não me conhece. Ou melhor meio que me conhece porque eu fui na sua casa ontem, te pedi um ovo. Não sei se você se lembra, acho que se lembra… De qualquer jeito, eu não fui na sua casa porque queria um ovo, eu nem sei quebrar um ovo. Ou melhor eu sei, porque eu quebrei os ovos dentro do meu casaco, porém não sei quebrar ovos na cozinha… isso não importa. A não ser que você goste muito de cozinhar… De qualquer jeito, na verdade eu queria te conhecer. Eu moro no prédio em frente ao seu, e de vez em quando não posso evitar de te ver pela janela. Quero deixar claro que não sou um maníaco, é óbvio que isso seria algo que um maníaco diria, mas eu não sou um, juro! Nunca fiz isso antes! Mas você me chamou a atenção, e de vez em quando você também olhou para mim… ou talvez tenha sido só a minha imaginação. De qualquer jeito… eu queria te conhecer melhor. Então se você não me achar um maluco e também quiser me conhecer, nós podemos nos encontrar. Bom, eu pensei em como você pode dar essa resposta e já que “nos conhecemos” pela janela, você podia pendurar algo azul lá na sacada. Vou ficando por aqui…”

PS: Não estou dando o número do meu tel porque estou com medo que você chame a polícia, por favor não faça isso :(

Até

Vizinho de janela

Ela não sabia o que fazer primeiro, se chorava de rir ou se ia correndo na sacada pendurar uma coisa azul. Então ela fez os dois ao mesmo tempo. Ele estava na cozinha olhando para a sacada dela, quando ele a viu com algo azul nas mãos, ele também saiu e os dois se viram. Ela ainda ria muito, e rindo sacudiu uma toalha azul para ele. Ele gritou para ela descer e assim ela fez.

Os dois desceram correndo, saíram dos seus prédios, correram pela rua, giraram a esquina e se encontraram. Eles foram tomar um café e tomam café até hoje.

Estrada

Fevereiro 14, 2011

Tarah e Sibelle

Fevereiro 14, 2011

Tarah Eu te prejudiquei tanto.

Sibelle (seca) Já passou. Muita coisa aconteceu por aqui nesses dias, esquece, você precisa descansar.

Tarah Eu vou morrer, já posso sentir. Antes não, antes era uma idéia, agora é uma certeza, eu sinto como se meu ar estivesse se esvaindo aos poucos, como se minha alma estivesse se despregando do meu corpo a cada tomada de ar.

Sibelle Desde quando você acredita em alma?

Tarah Desde que eu percebi o quanto é inevitável lutar contra essa doença.

Sibelle Só falta você falar que vai querer chamar o padre antes de morrer.

Tarah Não! Eu vou para onde merecer ir (pausa). E você?

Sibelle Eu o quê?

Tarah Você sabe…

Sibelle Se você não se importa, eu não quero falar disso!

Tarah Por quê você o deixou?

Sibelle Por que você quer saber? Quer que eu te alivie a culpa do que fez contando o motivo fútil que me fez ir embora. Você mesma disse que vai para onde merece ir.

Tarah Me deixa, não sei o que você faz aqui.

Sibelle Já me perguntei isso muitas vezes. Acho que te ver morrer me alivia de alguma forma. Ou, quem sabe, estou querendo reparar um erro com uma boa ação.

Tarah Eu sou sua boa ação, é no mínimo irônico.

Sibelle Não vai demorar muito (se senta ao lado de Tarah e segura sua mão).

Tarah Me perdoa.

Sibelle (a olha fixamente por um tempo) Quem sou eu para perdoar alguém?

Pequenas semelhanças

Fevereiro 9, 2011

“Eu gosto de olhar a roupa girar dentro da máquina de lavar.”

Eu também, vivia fazendo isso quando eu era pequeno.”

Nossa! Achei que eu era a única pessoa que gostava de fazer isso.”

Pois não é 🙂 “