O Elmo Perdido – III

Abril 23, 2012

III

 Dário tinha a impressão que ela gostava de conversar, embora nunca iniciasse uma conversa.

Sempre paravam na parte da manhã e em uma dessas paradas, enquanto comiam, Dário se arriscou novamente. “Eu percebi que você gosta de andar mais durante a noite.” Ela não respondeu, mas ele não se deu por vencido. “Eu também prefiro a noite.”

“Impossível. Os humanos são loucos pelo sol.”

“Nem todos.”

Ela levantou o rosto e seus olhos se encontraram. “Por que você prefere a noite?”

“Tudo é mais verdadeiro durante a noite. Todos são gentis debaixo do sol, mas quando está tudo escuro, as pessoas se mostram como elas realmente são.” Alguns segundos se passaram em silêncio.  E você?”

“O mundo é mais bonito de noite, as flores mais cheirosas sabem disso, por isso soltam o seu perfume quando o sol vai embora. Os humanos sempre querem ver tudo, não sabem ver a beleza do desconhecido, por isso preferem o dia.”

“Você não gosta muito dos humanos, não é?”

“Não gosto da maioria.”

Eles deitaram para descansar, mas Dário não conseguia dormir, mesmo se sentindo exausto. Quando a noite estava caindo, ela recolhia suas coisas para continuar a viagem e ele mais uma vez, procurou uma conversa. “Como é lá embaixo?”

Ela lhe sorriu. “É escuro. Alguns lugares são frios, mas o fogo esquenta e ilumina o bastante.”

“E as pessoas.”

“São julgadas e recebem o que merecem.” Dário estremeceu e desviou os olhos de Ágape; naquele mesmo instante, viu uma rajada de fogo voando na direção dela. Ele puxou as mãos amarradas com força fazendo-a cair. O fogo passou rente aos cabelos de Ágape e atingiu uma árvore que incendiou em seguida. Não era uma rajada, era uma flecha pegando fogo. Ágape se levantou imediatamente; os dois ficaram um de costas para o outro. Estavam cercados por saqueadores.

Um dos homens se aproximou dos dois, tinha olhos estreitos, cabelos curtos e vermelhos; ele os rodeou passando a mão na barba mal feita. “Que casal interessante. O que ele fez para você prendê-lo? Dormiu com sua melhor amiga?” Os outros homens soltaram uma gargalhada e ele se aproximou de Ágape. Ela lhe olhou nos olhos. “Temos uma durona aqui. Acho que a sua pose vai mudar em minutos.” Ele aproximou seu rosto do dela e foi o último movimento que fez em vida, pois a espada de Ágape lhe atravessou o estômago. Seus companheiros pasmaram por meio segundo e os atacaram com fúria.

 

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