Janelas

Fevereiro 18, 2011

Ela vivia em um apartamento onde todas as janelas davam para outras janelas.

Em um dia como outro qualquer, ela estava na cozinha vendo televisão, quando olhou para fora e viu alguém. Estava acostumada a ver as pessoas dentro das casas, vivendo suas vidas, mas não se lembrava de ter visto aquele rapaz lá antes. Por algum motivo, achou que ele era interessante, não podemos dizer que ela o achou bonito, pois daquela distância não se podia ver o rosto das pessoas. Ela o observou por alguns segundos e voltou a fazer o que estava fazendo.

Depois daquele dia, de vez em quando, ela dava uma espiadinha para ver se o via de novo e ria consigo mesma. O que ela não sabia era que ele também tinha notado a sua presença.

A primeira vez que a observou foi quando ela estava sentada em frente a sua escrivaninha usando o computador. Ele estava na sacada fumando um cigarro, ele a viu, mas a princípio também não fez muito caso. Ele também já tinha se acostumado com as janelas e a vida dentro delas. Porém, ela se espreguiçou, esticou os braços para cima e olhou para fora. Nesse momento o olhar dois se cruzaram, ela se sentiu envergonhada por um momento, deu risada e voltou a fazer o que estava fazendo no computador, sem perceber que ele também riu. Menos de dois minutos se passaram, e ela, por curiosidade, queria saber se ele ainda estava lá, deu uma olhada com o rabo do olho, mas não, ele já tinha entrado, porém o sorriso continuou em seus rostos.

Conforme os dias passavam, os dois, de vez em quando, davam uma olhadinha pela janela, de curiosidade.

Uma dia estava tendo uma partida de futebol, Brasil e Inglaterra. Cada um na sua casa, cada um no seu mundo, assistindo a partida sem nem se lembrar da janela do outro, até que o Brasil fez um gol, ela salta de alegria, ele, não só salta, como também olha vai até a janela para gritar gol e sem perceber, seus olhos vão até a janela dela, ela está lá festejando o gol, ele ri sozinho.

Depois daquela noite os dias continuaram a correr normalmente e os dois continuaram a se procurar com olhadinhas furtivas pelas janelas.

Um dia ele fez uma festa, tinham muitas pessoas na sua casa. Ela percebeu, gostava de ouvir o barulho de festa, era como se não estivesse sozinha. Em um certo momento ele saiu na sacada para conversar com algumas pessoas que estavam fumando, entre uma frase e outra, ele dava uma olhadinha para a janela dela. Ela estava na cozinha, vendo TV . Por um momento ele desejou poder convidá-la para a festa. Alguns segundos depois desse pensamento o seu coração deu um pulo, ela também saiu na sacada, era a primeira vez que ele a via um pouco mais de perto. Tentou disfarçar para que os outros não percebessem, porém não conseguia evitar que seus olhos procurassem ver o que ela estava fazendo. Ela tinha saído para recolher as roupas do varal. Quando ela terminou, levantou a cabeça e foi então que o viu, os dois se olharam por uma fração de segundo, e assim como da outra vez, ela entrou em casa rindo de si mesma.

Depois daquela noite ele não conseguia mais afastar o sentimento que queria conhecê-la. Começa a procurar por ela na janela com mais frequência. Em alguns momentos pensa que talvez era melhor se ele saísse e arrumasse uma namorada, porque ficar procurando uma desconhecida na janela parecia coisa de gente louca. Mas era impossível, ele não conseguia esquecer, pois toda a vez que a via se sentia realmente feliz como um bobo. Ela também o procurava, mas preferia não pensar tanto no assunto, nunca foi fã de amores platônicos.

Um dia, ele finalmente decidiu, ia procurá-la. Sabendo onde estava a janela dela, não era difícil descobrir qual era o prédio, o andar ele já sabia, era o quinto. E lá foi ele, girando a rua ele ficou muito feliz, pois haviam muitas lojas e dois bancos, então ele sabia que não podiam ser aqueles prédios. Finalmente viu um prédio residencial, devia ser aquele. Esperou um tempo e pronto, alguém entrou no prédio, ele disfarçou e conseguiu pegar a porta aberta. Chegando no quinto andar seu coração era mil. Tinham quatro apartamentos, o primeiro ele sabia que não podia ser, por causa da posição. Porém os outros três sim. Ele começou a pensar no que falar, pensou… pensou… e não conseguiu achar nada melhor que “Preciso de um ovo para fazer um bolo, será que você poderia me emprestar?” Ele achou esse pensamento estranho, visto que ele nunca fez um bolo em vida sua, mas decidiu continuar com essa frase já que não pensava em nada melhor.

Parou em frente a primeira porta, respirou fundo e tocou a campainha. Ouviu o barulho da chave e suas pernas tremeram, pensou em sair correndo, mas não tinha mais tempo, uma senhora abriu a porta. Não era a casa dela. Ela o olhou e ele boquiaberto esqueceu o que devia dizer, até que a Senhora disse “Pois não?” E ele se lembrou. A Senhora deu o ovo a ele, e ele agradeceu. Era hora de ir para a segunda porta, mas e agora? O que ele fazia com aquele ovo? Decidiu que queria acabar logo com aquilo, escondeu o ovo no bolso do casaco e foi para a próxima porta.

Dessa vez estava mais relaxado, porém, quando a porta se abre a sua respiração para. Era ela! Sem dúvida! Era bonita, ele imaginava que ela seria bonita, mas ela era realmente bonita e tinha um sorriso contagiante. Ele não fala nada, a sua cara era de quem tinha conseguido provar algo que já sabia que existia. Resumindo, era uma cara de bobo. Ela não tinha a menor ideia que ele era o rapaz da janela. Se soubesse provavelmente faria a mesma cara, mas como não sabia, ela falou “Posso te ajudar?”

Ele saiu do transe e desembuchou a frase do ovo. Ela ri, pois o modo como ele falou foi realmente engraçado. Depois ela vai pegar o ovo, ele agradece e ela fecha a porta. Ele fica lá parado um tempo com aquele ovo na mão se sentindo o rei dos imbecis.

Ele volta para casa e continua pensando no que fazer. Aquilo não deu muito certo, ele queria conhecê-la, essa parte deu certo, mas e agora? Ele gostou dela, queria conhecê-la ainda mais. Como fazia para não parecer um maniaco que olha as pessoas pela janela e depois as persegue? Então ele decide escrever uma carta, explicando tudo e chamando ela para um encontro. Era isso o que ele ia fazer! E com essa decisão ele coloca as mãos nos bolsos do casaco com muita determinação e quebra os ovos. Digamos que isso não afetou a sua resolução.

No dia seguinte ela encontra uma carta de baixo da sua porta:

Olá, você não me conhece. Ou melhor meio que me conhece porque eu fui na sua casa ontem, te pedi um ovo. Não sei se você se lembra, acho que se lembra… De qualquer jeito, eu não fui na sua casa porque queria um ovo, eu nem sei quebrar um ovo. Ou melhor eu sei, porque eu quebrei os ovos dentro do meu casaco, porém não sei quebrar ovos na cozinha… isso não importa. A não ser que você goste muito de cozinhar… De qualquer jeito, na verdade eu queria te conhecer. Eu moro no prédio em frente ao seu, e de vez em quando não posso evitar de te ver pela janela. Quero deixar claro que não sou um maníaco, é óbvio que isso seria algo que um maníaco diria, mas eu não sou um, juro! Nunca fiz isso antes! Mas você me chamou a atenção, e de vez em quando você também olhou para mim… ou talvez tenha sido só a minha imaginação. De qualquer jeito… eu queria te conhecer melhor. Então se você não me achar um maluco e também quiser me conhecer, nós podemos nos encontrar. Bom, eu pensei em como você pode dar essa resposta e já que “nos conhecemos” pela janela, você podia pendurar algo azul lá na sacada. Vou ficando por aqui…”

PS: Não estou dando o número do meu tel porque estou com medo que você chame a polícia, por favor não faça isso :(

Até

Vizinho de janela

Ela não sabia o que fazer primeiro, se chorava de rir ou se ia correndo na sacada pendurar uma coisa azul. Então ela fez os dois ao mesmo tempo. Ele estava na cozinha olhando para a sacada dela, quando ele a viu com algo azul nas mãos, ele também saiu e os dois se viram. Ela ainda ria muito, e rindo sacudiu uma toalha azul para ele. Ele gritou para ela descer e assim ela fez.

Os dois desceram correndo, saíram dos seus prédios, correram pela rua, giraram a esquina e se encontraram. Eles foram tomar um café e tomam café até hoje.

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