Ao contrário dos outros, o Cavaleiro não foi procurar sua porta imediatamente. Ele seguiu o rio e olhou para o outro lado. Procurava seu cavalo, não ia a nenhum lugar sem ele. Como seu cavalo também o procurava, não demorou muito para eles se encontrarem. O cavaleiro sorriu e abraçou seu único amigo. “Vamos amigo, vamos sair daqui!” Subiu em cima dele e foi procurar sua porta.
Quando a achou, ele a abriu de cima do cavalo, se abaixou para não bater a cabeça e eles entraram. Imediatamente fechou os olhos, pois uma luz muito forte veio em sua direção. Demorou um bom tempo para que ele conseguisse abrir os olhos e se acostumar com a luz. Quando finalmente conseguiu abrir vislumbrou uma paisagem que nunca tinha visto. Tudo ao seu redor era areia, dunas de uma areia quase vermelha. Olhou para trás, como ele esperava a porta não estava mais ali. O sol era forte, ele deu alguns passos tímidos, resolveu subir em uma das dunas, a mais alta delas, quem sabe não conseguia ver algo. Ele esperava ver uma cidade ou algo parecido, mas o que ele viu foi uma fila de cinco camelos vindo em sua direção. Um pouco por instinto e um pouco por saber o que o seu uniforme representava ele tirou a malha que cobria a armadura, pois esta continha um grande crucifixo impresso. Ele desceu do cavalo e enterrou a malha na areia.
Cavalgou em direção aos camelos, quando eles o viram pararam. Um deles, um homem, desceu do camelo, o Cavaleiro fez o mesmo. O homem usava muitas roupas, todo de preto, era todo coberto, só deixando a vista os olhos. Ele falou alguma coisa e o Cavaleiro não entendeu. Percebendo que o Cavaleiro não sabia sua língua, o homem apontou para o Cavaleiro e fez o gesto de beber e comer com a mão. O Cavaleiro entendeu e fez não com a cabeça, depois se agachou e com o dedo desenhou algo como uma cidade na areia e olhou para o homem, que balançou a cabeça e apontou para o horizonte chocalhando o braço, como quem diz, que é naquela direção, porém longe. Vendo a cara de desilusão do Cavaleiro o homem apontou para ele e depois fez sinal com os braços, como chamando o Cavaleiro para viajar junto com eles.
Naquele momento o Cavaleiro se sentiu realmente em culpa. Há muito tempo atrás, tanto tempo que ele nem sabia quanto tempo era, ele tinha matado pessoas vestidas daquele jeito e mesmo que ele tentasse se convencer que não eram as mesmas pessoas, ele sabia que eram. Eram árabes e ele tinha matado muitos árabes em nome da Igreja. Como podia viajar com eles, comer sua comida e dividir sua água? O homem percebeu a hesitação do Cavaleiro, foi até os outros e falou algo. Todos desceram dos camelos, o Cavaleiro sentiu um pouco de apreensão, porém, o homem mostrou cada um dos membros do grupo. Um deles era uma mulher, um outro homem, um adolescente, outra mulher, mais jovem da primeira (se via pelos olhos, pois todos eram cobertos) e um menino que não devia ter mais de sete anos. O homem apontou para ele mesmo e para a mulher mais velha e depois para o adolescente e para o menino. O Cavaleiro entendeu, eram uma família. Lhes sorriso envergonhado e fez um tipo de reverência como para agradecer.
O homem lhe deu uma túnica e também algo para cobrir o rosto, apontou para o sol e o Cavaleiro entendeu que se ele continuasse com a armadura morreria de calor e queimaria o rosto. A mulher mais velha deu de beber e comer ao cavalo e o outro homem do grupo improvisou uma tenda para o Cavaleiro se trocar, ele ficou impressionado com a rapidez que o homem montou a tenda.
Uma vez todos prontos se colocaram de novo ao caminho e o Cavaleiro os seguiu.
